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  • Maurício Prazak

Repensando a estratégia de combate ao Coronavírus

Atualizado: Abr 1

Precisamos repensar nossa estratégia de combate ao coronavírus. (*)

Realmente, estamos diante de um cenário que, pela sua escala e pela sua natureza, é completamente distinto de qualquer situação emergencial de rotina.


imagen: Mackay - artizans.com

Antes de mais nada, importante reconhecer o grande trabalho dos profissionais de saúde do mundo todo, somado à rápida resposta dos governos, em adotar medidas drásticas de mudança de comportamento da população, que foram fundamentais para conter o que poderia já ter se transformado em um quadro catastrófico do ponto de vista de saúde pública. É necessário preservar a vida. Não há dúvidas disso!

Entretanto, precisamos rapidamente começar a pensar em como ajustar nossas estratégias para evitar um colapso econômico.


As quarentenas de longo prazo, restrições de viagens e o distanciamento social, em que pesem funcionarem para evitar o espalhamento do vírus, já causaram um severo impacto na economia global.

As poucas semanas de “batalha” contra o vírus já causaram significativa redução no PIB mundial, com lenta recuperação prevista para iniciar apenas no segundo semestre de 2020 (isso se todas as condições forem favoráveis).

E os efeitos só se agravam a cada dia que passa:

– o isolamento da população implica queda acentuada de consumo e de investimentos, algo capaz de destruir uma economia em desenvolvimento como o Brasil;

– milhões de micro e pequenas empresas certamente não conseguirão suportar a paralização de suas atividades por mais do que alguns poucos dias, o que acarretará um tsunami de falências;

– o fechamento das empresas poderá desencadear um quadro de dezenas de milhões de desempregos;

– a falência das empresas imporá maior pressão no já instável sistema financeiro/bancário

Os impactos até o dia de hoje:

Para se ter uma ideia do tamanho do problema, até o dia de hoje:

Um estudo da plataforma GetNinjas* (que reúne 1,5 milhão de PRESTADORES DE SERVIÇOS AUTÔNOMOS e movimenta cerca de 1,2 bilhão de reais ao ano), observou uma redução de 23,8% do total das 400 mil solicitações mensais de serviços, em praticamente todos os segmentos oferecidos pela plataforma.

Prestadores de serviço que trabalham em setores relacionados a eventos, como garçons, copeiras, churrasqueiros, animadores, etc. já haviam chegado em reduções acima de 70% com forte perspectiva de zerarem a prestação de serviços a qualquer momento.

*fonte: Impacto do Covid-19 no setor de Serviços Autônomos – Getninjas – 18/03/2020.

No setor de VAREJO* o problema foi ainda maior:

Companhias de varejo viram o valor de suas ações cairem até 44%.

Mercados como de móveis e de moda já tiveram redução de faturamento na casa de 50%.

Categorias mais atingidas foram as que envolvem contato humano. Os setores de alimentação fora-de-casa, entretenimento fora-de-casa, viagens, salão de beleza e ginástica já acumulavam redução de consumo na ordem de 90% (isso antes do lockdown determinado pelo governo)!!!

*fonte: Impactos no Varejo – Covid-19 – Google Retail AIT – 17/03/20


No setor de TRANSPORTES, já observamos queda de 77,2% no faturamento das empresas de transporte e turismo, se comparado com 2019.

*fonte: ICVA - Índice Cielo do Varejo Ampliado - 16/03/20


Isso sem contar os SHOPPINGS fechados, o que significa nada menos que 4 milhões de pessoas sem empregos!!!


É certo que medidas econômicas têm sido tomadas para atenuar, no mínimo do sustentável, o desemprego. Mas quando falamos em manutenção da saúde empresarial, precisamos considerar quantas vidas já estão sendo afetadas, e como isso pode virar uma verdadeira calamidade social, caso o quadro não seja rapidamente revertido.

A matriz da economia brasileira sempre foi baseada em consumo, portanto, os efeitos econômicos de um lockdown prolongado serão sentidos por vários meses, talvez anos.

Precisamos buscar estratégias de luta contra o vírus que sejam efetivas no aspecto da saúde pública, mas que não destruam a saúde econômica da sociedade como um todo.


Sobre a experiência Chinesa:

Um aspecto importante a ser considerado é que o mundo se baseou na experiência da China, que fez o lockdown do país e agora, já livre da propagação do vírus, emerge novamente recuperando sua economia.


Entretanto, como foi bem salientado pelo editorial do The Wall Steet Journal*, precisamos lembrar que o governo chinês é detentor da maioria do capital das empresas chinesas. Em outras palavras, o governo assumiu os custos.

Em países como o nosso, o peso recai diretamente nas empresas que não tem estrutura financeira para arcar com o prejuízo de um lockdown prolongado. Especialmente considerando que quase 90% de nossa economia é sustentada por micro e pequenas empresas.

*rethinking the Coronavirus Shutown - 19/03/20

Construindo propostas de Solução:


O que se busca, aqui, não é apontar uma solução definitiva, mas, antes sim, chamar a atenção para importantes pontos que devem ser considerados no (re)desenho da estratégia de combate ao coronavírus.


Antes de mais nada, precisamos reconhecer que a situação exige um processo de administração de crise verdadeiramente disruptivo.

A crise se desenvolve em velocidade mais acelerada do que a capacidade de interpretação e entendimento das organizações e governos. Métodos tradicionais de solução de crises, como estudos estratégicos profundos, não são capazes de oferecer as respostas rápidas e eficazes que a situação demanda.


De início, as autoridades no mundo todo confiaram o encaminhamento do assunto à comunidade médica, que agiu conforme o posicionamento apropriado para sua área, sem considerar, entretanto, os efeitos econômicos globais. Nada mais do que o natural.


Após o "susto inicial", autoridades e economistas no mundo todo pararam para repensar o assunto, e visualizaram o tamanho do problema.

Conforme mencionamos acima, é necessário considerar o enorme impacto humanitário e social de uma recessão econômica profunda, especialmente para as classes menos favorecidas.


É necessário construir uma solução que não só seja eficaz no combate aos riscos à saúde associados à pandemia, mas também preserve a vida e a dignidade de cada cidadão ao minimizar os efeitos deletérios de um colapso econômico.



Falamos isso usando o que talvez seja o único bom exemplo que encontramos hoje no mundo de combate ao coronavíus: a Coreia do Sul. Foi um dos países mais afetados pelo vírus, entretanto, foi o que mais conseguiu conter a taxa de infecção, teve o menor índice de mortalidade por contágio (0,7% no total, comparado com a média mundial de 16%) teve contração de sua economia apenas na ordem de 2%!!!

O grande segredo do país parece ter sido justamente a implementação de medidas drásticas de testagem da população. Assim é possível identificar e isolar quem está realmente infectado, e não quem está são e pode continuar a trabalhar e produzir.

Isso é possível para o Brasil.

Existem, hoje, mais de 120 testes de biologia molecular comercialmente disponíveis, e mais de 80 testes de sorologia comercialmente disponíveis.

O que se faz necessário é uma ação coordenada que tenha como foco não só a preservação da saúde (e da capacidade de atendimento da rede), mas também a manutenção da atividade econômica.


O ponto que nos parece mais importante é reconhecer que, ao mesmo tempo que devemos ter o máximo de prudência e diligência no combate ao coronavírus, o país em si não sobreviverá a um lockdown prolongado. Caso a situação permaneça, certamente veremos prejuízos à vida, à saúde e à dignidade das pessoas de ordem muito superiores àquilo que o vírus pode trazer.


Precisamos encontrar uma outra alternativa que possa conciliar as duas realidades. Seja através de um estudo sério do chamado confinamento vertical, centrado nos idosos e grupos de risco, seja através de maiores investimentos no aumento da capacidade de atendimento dos serviços de saúde, de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novos tratamentos, enfim... O importante é considerar que o lockdown não é uma solução, mas sim outro problema a ser solucionado, em paralelo ao Covid-19.


Com tudo isso, vemos também como importante que, num momento como esse, o governo federal, os governos estaduais, municipais e a população em geral deixem de lado suas divergências político-partidárias, a polarização social e trabalhem com um esforço único e concentrado, buscando uma estratégia econômica e socialmente sustentável.


(*) dada a extrema politização do debate acerca da suspensão do lockdown (conforme observado na mídia e nas redes sociais nos últimos dias), optamos por rever o conteúdo deste artigo (originalmente publicado no dia 26/03/20) e, assim, preservar a imparcialidade e independência sempre características desse Instituto.

Maurício Prazak – Presidente do IBREI, Sócio do escritório Finocchio & Ustra Advogados

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